Nunca percebi a narrativa de que os portugueses não querem crises políticas, mas estabilidade. Não querem eleições . A democracia vive, essencialmente, de eleições, sejam elas ordinárias ou extraordinárias, motivadas, por demissões impostas ou exonerações. Noutros países, bem mais desenvolvidos do que nós (se tivermos em conta a qualidade de vida), as eleições não são assim encaradas. Provavelmente, a culpa deste tipo de consistência e consciência políticas é ainda do Estado Novo , mas penso que está na hora dos nossos operadores políticos serem mais assertivos, senão o resultado é o que se vê.
Se precisássemos de mais evidências sobre a desorientação do governo a respeito das manifestações, bastaria olharmos para a reação, por exemplo, do ministro da Administração Interna (MAI), Luís Neves , relativamente à decisão do tribunal ao dar razão a Renata Cambra sobre a possibilidade de colocar tendas nas respetivas praças públicas, como forma simbólica de protesto. Diz então o MAI que a decisão diz somente respeito à requerente, isto é, não obriga a polícia a atuar de maneira diferenciada com outros manifestantes que façam exatamente o mesmo que Renata Cambra.